O Futebol e a televisão

Antes de mais nada, alguns avisos:

– Este texto irá desagradar a um grande número de pessoas.

– Estou escrevendo como PUBLICITÁRIO  e profissional de MARKETING, e não como torcedor do Corinthians.

– O fato de eu entender um fenômeno de comunicação não significa que eu concorde com ele ou que agiria igual se no comando estivesse.

Posto isso, vamos lá. Em várias conversas com os demais integrantes do Em Cima da Linha, muitos (em especial o Luiz) contestam o número de jogos do Corinthians que são transmitidos pela Rede Globo, além do baixo número de jogos comparados a outros esportes e outras mídias. Vamos entender o que significam Corinthians e Flamengo para a Rede Globo?

Aliás, por que só falar da Rede Globo? Porque ela é dona dos direitos de transmissão dos jogos por TV, Rádio, Internet, Sinal de fumaça…

Bom, acho que não há nenhuma dúvida quanto ao tamanho das torcidas, certo? Flamengo e Corinthians são muito maiores – e a do Corinthians concentrada em um estado, enquanto a torcida do Flamengo é espalhada Brasil afora.

O que um diretor de uma emissora de televisão quer? Audiência. Para que? Para GANHAR DINHEIRO COM ANUNCIANTES.  Então se não tiver audiência e ganhar dinheiro, ou tiver e não ganhar dinheiro (eu sei, são coisas difíceis, mas acontece), é sempre o segundo fator que vai prevalecer.

E o futebol, meus amigos, é para a Rede Globo somente MAIS UMA ATRAÇÃO. Mais um programa. Para a emissora carioca, o futebol é como o Faustão, a Regina Casé, o Fantástico, a Novela e o Jornal Nacional. Uma fonte de renda (discussões sobre importância da televisão educar, etc, etc, deixem para um blog de sociologia, por favor, aqui o foco é futebol). Um produto muito ruim nos últimos anos, inclusive.

E dentro dessa filosofia, a Globo privilegia os times de maior torcida, Flamengo e Corinthians, por motivos que superam o óbvio: elas são maiores, em número de torcedores. Não estou dizendo que são melhores, mais legais, mais cheirosas, mais bonitas e mais fiéis, ou qualquer outra bobeira do tipo. Acho que cada torcida tem suas características próprias e deve ser respeitada por isso, e aliás grande parte da graça do futebol vem disso. Mas as duas torcidas acima têm mais gente. Então a chance de dar mais audiência é maior. Simples assim. Reuni alguns argumentos do pessoal do Em Cima da Linha contra essa situação, e vou tentar explicar um por um abaixo. No final, minha sugestão de como deveriam ser negociados os direitos de futebol no Brasil. (vou falar só do Corinthians pra facilitar, mas o raciocínio é muito parecido com o Flamengo).

“os jogos do Corinthians não são necessariamente os mais importantes para o campeonato”

Concordo. Mas como disse acima, a Globo não quer saber de importância de jogo, quer que mais pessoas assistam. A maior parte dos torcedores, seja de qual time for, prefere assistir aos jogos de seu time do que o jogo que define o campeonato. Ah, você que está lendo não faz isso? Mas a maioria faz, meu amigo. E se a maioria vê o jogo, ele dará mais audiência.

“mas os jogos do Corinthians têm dado cada vez menos audiência”

Sim, A TELEVISÃO tem cada vez menos audiência. Não é exclusivo do futebol, nem do Corinthians. Hoje as pessoas têm TV a cabo, Netflix, internet, facebook, twitter, instagram… enfim, várias formas de diversão que vão muito além da TV aberta. Inclusive hoje ninguém assiste jogo sozinho em casa, a pessoa vai comentando nas redes sociais (qualquer dia escreverei sobre isso). Logo, o fato do Corinthians estar dando menos audiência não significa que os outros times dariam mais. Novamente, apelo para os tamanhos das torcidas. Aliás, o Blog do Juca Kfouri fez um interessante levantamento pelo Facebook (sem nenhum valor científico, mas serve como curiosidade).

“ah, mas outras torcidas, como a do São Paulo, estão enchendo mais o estádio do que a do Corinthians”

Sim, na média deste campeonato, sim. Mas primeiro devemos entender que a diferença de preços entre uma torcida e outra é abissal. Se o Corinthians cobrasse o mesmo valor do que o São Paulo, certamente encheria mais o estádio. E mesmo que não fosse o caso, é necessário entender que torcida de estádio é completamente diferente da torcida que vê o jogo em casa pela TV. Um link interessante sobre este assunto é o blog do Rica Perrone.

Qualquer outro argumento utilizado, amigos, vai cair na questão da audiência. Por que a Globo não deixa a Band passar um jogo diferente do dela? Porque abriria uma concorrência que ela não pretende.

Aliás, isso é outro fato curioso. Tanta gente fala mal da Globo, mas passando o mesmo jogo da Band ela chega a ter o quádruplo, até o quinto de audiência em relação à emissora do bairro do Morumbi. Li recentemente que 73% das pessoas que assinam TV a cabo o fazem para ter uma melhor imagem da Globo.

Não estou defendendo a “toda poderosa”, muito pelo contrário. Mas uma coisa é ter uma opinião contra ou a favor de determinada postura, outra coisa é enxergar o óbvio: as pessoas só acompanham futebol pela Globo. Inclusive o argumento de muitos para diminuírem o Campeonato Mundial conquistado pelo Corinthians em 2000 é que o campeonato não foi televisionado por ela.

As olimpíadas de Londres foram um fracasso comercial para a Record. Por que os anunciantes não foram para um evento tão grandioso que só passaria na emissora do Bispo Macedo? Simples, existe uma cultura dentro do mercado publicitário de que o mesmo produto na Globo e em outro canal diferente vale muito mais na Globo.

E é por isso que os times não querem vender o campeonato para outras emissoras, mesmo que elas paguem muito mais – como foi a proposta da Record recentemente. Os dirigentes sabem que o valor de patrocínio das camisas por exemplo cairiam drasticamente se o torneio só fosse exibido em qualquer canal que não a Rede Globo. Mesmo que mantivesse o atual padrão de (baixa) audiência. É absurdo? Sim, muito. Mas é o atual mercado. Vou repetir: não concordar não significa que eu ignore este fato.

Em uma dessas conversas o Luiz, que também é colunista aqui, ficou ofendido quando eu disse que a marca Palmeiras é muito mais fraca que a marca Corinthians, pelo número de seguidores. Ele disse que o Corinthians só tem patrocinador agora por causa de sua relação com o governo federal, e antes por causa do Ronaldo, antes porque o dono da Kalunga era conselheiro, e por aí vai… Sempre vão encontrar um motivo ou desculpa, mas o Corinthians nunca ficou tanto tempo sem patrocínio como está o Palmeiras agora, exatamente pelo número de torcedores.

Empresário quer ver gráfico de vendas subindo, não importa o time pelo qual ele torce. Isso não tem nada a ver com história, grandeza, títulos… tem a ver única e somente com dinheiro, mesmo.

Eu, se fosse diretor da Globo, faria sim várias mudanças na transmissão dos campeonatos. Colocaria jogos sábado e domingo (pelo menos um jogo em cada dia desses, mas se bobear colocaria dois, um pra TV aberta e um pro Sportv), jogos às quartas e quintas às 20h, 20h30, e a série B às segundas, terças e sextas, na TV fechada. Teria futebol todo dia na TV, em um horário decente.

Se fosse diretor de clube, venderia os direitos para pelo menos três emissoras, obrigando que todas transmitissem jogos diferentes em pelo menos três dias da semana, também. Isso aumentaria a exposição de todos os times, que consequentemente teriam mais patrocinadores, que por sua vez trariam mais dinheiro para todo mundo.

Lógico que outros fatores precisam melhorar para que se aumente a qualidade do espetáculo futebol, e consequentemente a audiência: calendário, nível dos times, da arbitragem, etc. Mas ter uma oferta maior de jogos seria um excelente início.

Porém, não podemos esquecer que TODOS os dirigentes de clubes têm rabo preso com a CBF e a Globo, não só de informações, mas de adiantamentos referentes aos direitos de transmissão. Essa semana noticiou-se que o São Paulo antecipou suas cotas até 2018. Os outros clubes brasileiros estão em condições muito parecidas. Então fica muito mais difícil bater de frente com uma emissora de TV quando se deve alguns milhões para ela.

Ah, mas se você realmente chutar o pau da barraca e ameaçar não pagar, a Globo tem que ceder.

Meus amigos, olhem para os dirigentes dos nossos clubes. Vejam se algum deles tem envergadura política e principalmente moral para desafiar a 4ª maior emissora de TV do mundo. Reflitam: se você fizesse coisa errada, enfrentaria a Globo? Arriscaria ter sua vida investigada?

Sim, meus amigos, estão falando de bandidos, chantagem e por aí vai. E esse é apenas um dos motivos pelos quais o futebol brasileiro está na atual situação. O problema é muito mais profundo do que imaginamos, e não vejo solução a curto prazo.

Vejo a médio e longo prazo muita dificuldade para os times brasileiros, porque com o formato atual Corinthians e Flamengo são privilegiados, ganham mais da Globo, aparecem mais e conseguem mais patrocinadores. Tivessem uma administração um pouquinho melhor e seriam como Barcelona e Real Madri, milhas a frente do terceiro colocado.

Mas não achem que os outros clubes são coitadinhos. Quando o sr. Andres Sanchez propôs que os clubes deixassem o clube dos 13 pra negociar diretamente com a Globo, todo mundo foi atrás por vontade própria. O São Paulo e o Coritiba, se não me engano, foram os que mais demoraram, mas no final assinaram porque não enxergaram como sair deste monopólio. Mas ninguém foi obrigado a fazer isso. Fez porque enxergou a própria incompetência na montagem da estrutura do futebol brasileiro.

Uma liga, independente de CBF e Globo, resolveria a situação? Talvez sim. Seria como começar novamente do zero. Mas eu confesso que não enxergo disposição tampouco competência dos dirigentes para fazer isso.

Está cada vez mais difícil gostar do futebol no Brasil.

Ah, e pra quem acha que não sei do que estou falando, aproveito a oportunidade pra fazer uma pequena divulgação da minha dissertação de mestrado. Lá eu estudei um pouco dos fatores de compra do torcedor de futebol e o processo como se dá:

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12139/tde-25032014-151006/pt-br.php

 

 

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