O dia em que o cavalo foi fenômeno

Era o ano de 1998, e o Paisandu não vivia seu melhor momento, com um time fraco e maus resultados, a torcida do Papão da Curuzú carecia de ídolos, eis que a solução da diretoria bicolor foi a contratação de um “fenômeno”. Naquele ano o fenômeno Ronaldo era o craque do momento, ídolo da seleção brasileira e da Inter de Milão, Ronaldo era o melhor e mais caro jogador da época e era obviamente uma aquisição impossível para os cofres do clube paraense. Mas em momentos em que o dinheiro falta, o ser humano tem que apelar para a criatividade, e criatividade é algo que não costuma faltar aos brasileiros, ainda mais quando falamos de dirigentes de futebol.

Muito distante de Milão e de Belém, no interior do estado do Rio de Janeiro, um jogador chamado Darci, já veterano, e com a alcunha de Cavalo (não se sabe se devido a muita força física, a pouca técnica, ou um mix de ambos) reunia as seguintes características, alto, forte, careca, dentuço, e com a fisionomia muito parecida com a do fenômeno. Com boas passagens por equipes menores do Rio, principalmente no Volta Redonda, Darci não era um jogador barato naquele difícil momento do Paisandu, mas também não era uma contratação impossível, tanto que com um esforço, o Papão conseguiu contratá-lo.

Muito diferente do que aconteceu anos depois quando o bicolor paraense formou um grande time com Iarley, Vélber e o matador Róbson (O Robgol). Naquele ano a situação era crítica, tanto que a chegada de um reforço que a torcida sequer conhecia virou a grande notícia do futebol paraense. Só se falava na chegada do tal Darci Cavalo. O Papão tinha seu Fenômeno, que mesmo antes de estrear já era o grande ídolo da torcida.

Darci chegou a Belém, foi apresentado como craque, recebido como grande ídolo da torcida e esperança de dias melhores, treinou por alguns dias, até que chegou o grande momento, a hora da estréia.

No grande dia o estádio lotou, a torcida vibrava, agora o Paisandu também tinha seu Fenômeno. O jogo começou, mas como darci estava no clube há poucos dias e ainda não estava entrosado com os companheiros, começou no banco. Como era de se esperar o Paisandu começou o jogo muito mal, um time fraco e nervoso em campo, rapidamente começou a ser vaiado pelos seguidos erros, tanto que aos 15 minutos do primeiro tempo, a torcida em coro já gritava: “CAVALO, CAVALO!!!”

Após um péssimo primeiro tempo não restou outra alternativa ao técnico, botou o Cavalo em campo. O estádio ferveu aos gritos de “CAVALO, CAVALO!!!”, E a substituição mexeu com o moral do time, que iniciava um bom segundo tempo, em poucos minutos Darci Cavalo recebeu a primeira bola, mas dominou de canela e perdeu seu domínio, obviamente devido ao nervosismo da estréia. Mais alguns minutos e o alto Darci teve a chance no que sempre foi o ponto fraco de seu sósia famoso, o cabeceio, mas a cabeçada descordenada por baixo da bola fez com que ela subisse demais passando muito longe do gol.

Os minutos se passaram e o moral do time paraense voltou a baixar, e os erros do primeiro tempo também voltaram, com isso a bola parou de chegar ao recém contratado, a torcida novamente perdia a paciência e voltava a vaiar o time Os únicos momentos de euforia eram quando a bola se aproximava de Darci.

Eis que no final da partida ocorre o momento iluminado e mágico que só pode ser atribuído aos Deuses do futebol, o time da casa arma um contra-ataque genial, com uma troca de passes impecável, o último passe milimétrico é dado em direção ao matador Darci, que muito grato a recepção calorosa dos torcedores pensa em presenteá-los com um lance digno de Ronaldo Fenômeno e ao invés de matar a bola, opta por abrir as pernas fazendo o famoso corta-luz (jogada em que o jogador finge ir na bola para atrair marcação, abre as pernas e deixa ela passar, fazendo com que um companheiro livre de marcação fique na cara do gol). O corta-luz foi de cinema, Darci atraiu a marcação de toda a defesa adversária com a jogada. Só houve um problema, empolgado com a jogada, darci não observou que não tinha nenhum companheiro para receber o passe, e a bola calmamente saiu pela lateral no lance que ficou conhecido como corta-luz para ninguém.

Não entendendo a complexidade e o ineditismo da jogada, os impacientes torcedores revoltados passaram a xingar Darci de tudo quanto foi nome, e após o final da partida só se escutava a palavra cavalo seguida de palavrões pejorativos.

E assim foi o dia em que o Cavalo virou Fenômeno, mas voltou a ser apenas Cavalo.

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