Humanidade, festas, populares, carnaval, futebol e violência.

 Desde que a humanidade é humanidades, desde que existem as sociedades, nós temos um objetivo instintivo acima de todos. O da sobrevivência. Para isso fazemos todas nossas obrigações sociais.

Após isso, a maior forma de interação entre as pessoas, sempre foram as festas, e obviamente, as festas populares eram sempre as de maior sucesso. Seja a era que for, o povo que for, seja quem quer que seja, em qualquer lugar do planeta. Nada nunca foi comparável em algum momento como forma de integração social, como as festas populares.

Vindo para a nossa época, nosso ano, país, mais especificamente, nossa cidade. As duas formas de festa popular que obtém maior número de adoradores, são: Carnaval e Futebol. Ocasiões que arrastam milhões de pessoas, que param o país, seja o carnaval, que por um curto período de tempo abrange todo país, ou seja o futebol, que parceladamente atinge os momentos de lazeres de cidades e pessoas em todos os cantos dessa nação.

Não precisaria uma análise sociológica muito profunda, nenhum estudo de antropologia, psicologia, nada disso, para dizer que esses momentos festivos, principalmente em grupos de grandes massas, é uma forma simples e grandiosa de extravasar todo o processo automatizado de trabalho físico que vivemos, ainda mais nessa sociedade capitalista.

Após isso, é inevitável pensar e refletir, porque existem as pessoas que levam essa adrenalina da diversão, do desabafo social, para o lado violento, de confronto entre seus iguais, sem razão alguma.

Aí eu pergunto: O que poderíamos esperar de uma sociedade que impõe competição a todo custo desde o momento que entramos na 1ª série do colégio? Para que existem notas escolares para criança? Será que os professores precisariam expor suas avaliações pessoais de cada aluno em formato de notas? Não teria como avaliar o aprendizado de outra forma? E as provas, as crianças estão preparadas para essa cobrança?

Ao decorrer de todo processo estudantil, crianças, jovens, adolescentes, são brutalmente testadas, cobradas e incentivadas a superar não apenas a si próprio, mas principalmente, superar os demais. Quando estão prestes a saírem desse martírio que são as obrigações escolares, eles sofrem a maior das lavagens cerebrais que é a etapa de vestibulares, faculdades, mercado de trabalho, “ser alguém na vida”. Como assim ser alguém na vida? Quer dizer que se o jovem quiser ser artesão ao invés de ir pra faculdade  ou alguma multinacional, ele será menos gente do que os demais. Não preciso responder, não é?

Enfim, ao entrar no âmbito profissional é moralmente aliciado a todo o momento para vencer, vencer, vencer. Como se não pudéssemos conviver todos unidos, mas se nossa tarefa como pessoas fosse apenas comer nossos adversários vivos, como se estivéssemos brigando pela nossa presa. Isso tudo fora cobranças morais e familiares, muitas vezes impostas pelos convívios culturais, impulsionados pelas lavagens cerebrais da mídia, etc. Ufa. Se você se sentiu sufocado como eu, sabe do que estou falando.

Aí você me pergunta onde quero chegar. Esse ano, tivemos a explosão durante a cerimônia de apuração das escolas de samba por parte de alguns integrantes que não aceitaram a perda do título. Minutos depois, torcedores (ou deveriam ser) fardados com roupas da organizada corinthiana gaviões da fiel foram filmados chutando placas de ferro e supostamente colocaram fogo em um dos carros de outra escola no estacionamento do Anhembi.

Aí todos nós nos perguntamos: O que leva uma festa popular, que atrai milhões de pessoas, que envolve milhares trabalhando diariamente durante um ano, como isso pode ser causa de atos tão absurdos? Eu particularmente me pergunto: Quem inventou a disputa de vencedores no carnaval? E mesmo que haja essa disputa, porque ela não pode ser saudável?

A reposta com certeza renderia teorias e pesquisas e hipóteses e tudo mais. Mas não precisaria pensar muito para ter uma ideia de que o espírito de competição que fomos criados, aliados é claro a personalidade de cada um, muitas vezes ao caráter de cada um, e a falta de muitas outras coisas básicas socialmente falando, não precisaria ser um especialista para ter uma noção porque chegamos como humanos a esse ponto.

Se tentamos entender como uma competição de escolas de samba termina em vandalismo, como explicar que torcidas de futebol se digladiem em locais e horários pré-determinados pelo simples motivo de…? Alguém sabe explicar qual o motivo senão o da agressão desumana e sem motivo?

As torcidas em sua maioria utilizam como símbolos de suas torcidas, imagens de ícones políticos, revolucionários, que em sua maioria viraram mitos de muitas gerações. Seja Che Guevara, Bob Marley, ou até mesmo pasmem, grupos terroristas como Taliban. Que os jovens de nosso país são carentes de ídolo, de exemplos, isso é fato. Que toda carga de rebeldia que carregam dentro de si e que não estão acostumados, nem mesmo incentivados, a expelir em seu dia a dia de forma construtiva, que isso um dia geraria uma explosão dentro de cada um, também é fato. Mas até aí, seja por opressão social, carência afetiva ou mesmo desilusão e decepções com a vida, chegar ao ponto de descarregar toda carga em cima de outros jovens, iguais a eles, com os mesmos problemas e necessidades, é senão incompreensível, com certeza inaceitável.

A forma como trabalhamos esses casos dentro de nossa sociedade também é intragável. Agimos como se apenas a “maldade” dentro de cada um fosse o problema. É claro, como eu já disse, que a personalidade de cada indivíduo importa, e muito, mas redimir todos nós de culpa, e o mundo em que vivemos, é no mínimo covardia e egoísmo. Nós criamos gerações de vândalos, de jovens desamparados, de jovens competitivos, de seres humanos alienados, bitolados, sem perspectiva, sem educação, sem cultura, jovens que tem única e exclusivamente a visão de mundo que a TV lhes mostra e que, obviamente, o que passam em novelas e BBB, não é a vida deles, mas sim onde queriam chegar um dia, e claro, não chegarão jamais naquele status social.

Até quando vamos continuar com ações taxativas, aceitando o que o sistema, o que os chefes do sistema, políticos, televisões, meios de comunicação em geral, grandes empresários, até quando vamos aceitar o que eles decidem para todos nós? Até quando vamos lutar contra nós mesmos, estragando o que foi criado e perpetuado como festas populares, para nos divertimos, para justamente termos poucas e boas horas de felicidade, de limpeza de espírito, de alma lavada?

As Poucas horas que nos fazem esquecer que amanhã de manhã precisamos acordar e batalhar pelo mínimo para sobrevivência. Se durante 8 horas por dia somos obrigados a sermos inimigos para teoricamente batalharmos um lugar ao sol, custe o que custar, seja desafiando os nossos iguais, porque após essas 8 horas não podemos ser amigos, esquecendo todo o demais? Nós que nunca nos envolvemos em brigas de torcida, será que estamos tão impunes assim? Será que realmente não temos a mínima parcela de culpa de jovens precisarem se matar por “nada”.

Colocar a mão na cabeça e refletir é o mínimo. Porque se nossos filhos não estão em brigas de torcida, é um ótimo sinal, mas onde eles estão fazendo algo de bom realmente para o seu crescimento pessoal? Será que existe diferença entre o jovem que mata por uma torcida, pro jovem que dirige bêbado e mata nas ruas e estradas, pro jovem que briga em um bar, em um show? Tudo vem e vai da mesma origem, que se chama Opressão Social. Pensem nisso.

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