Dossiê futebol/seleção nacional – ciclo 2014

Depois de tudo, parando e analisando friamente o que ocorreu, vemos que o auge do vexame do futebol nacional, não é assim tão obra do acaso ou de “6 minutos de apagão” como disseram de forma até certo ponto ridícula o Felipão e o Parreira(que aliás continua sendo arrogante quando fala, tem-se a impressão que ele acha ser o único que entende de futebol, coisa que para mim nunca passou de um técnico comum com muita fama). Para entender melhor tudo o que aconteceu, farei um pequeno dossiê, começando pelo que houve nessa copa(ou seja, pelo meio), depois indo para o como o futebol e a seleção chegaram na atual situação e o que pode ser feito para sairmos dela, que nos moldes que está, tende somente a piorar.


Vamos então a primeira parte, que é o ciclo “copa 2014”
1 – da escolha do novo técnico
Dunga perdeu em 2010 com uma seleção que chamaríamos de razoável, sem jogadores brilhantes(não, kaká já não era um jogador brilhante nessa época, aliás, não o é desde 2008 quando levou o Milan ao título da Champions) e como ele tinha um tratamento “gentil” com a imprensa(porém justo, tratava todos mal) foi escurraçado e tirado como quase um marginal de lá. Chegou então a hora de colocar um novo técnico e o favorito até pela sequência de títulos brasileiros era o Muricy, que não aceitou, pois tinha contrato em vigor.

Mesmo na época já havia gente que torcia o nariz para os técnicos em atividade aqui e para os esquemas táticos superados que usavam, ainda sim o Muricy contava com muito prestígio pela excelente fase que vivia.

Recusado ele, as atenções foram para o Mano, que fazia bom trabalho no Corinthians. Ele aceitou de pronto e tornou-se técnico da seleção, porém ele não se mostrava ainda um técnico “maduro” para tal cargo. Não tinha força para sustentar as decisões que tomava e com certa frequência fazia convocações para “jogar para a imprensa ou para torcida”. Convocava gente que pediam, mesmo sem o jogador estar fazendo grande trabalho e constantemente mudava o time, não dava padrão e o time ia capengando.

2 – das derrotas nos grandes jogos

Mano conseguiu um feito que poucos conseguiram na sua passagem pela seleção: não ganhou de nenhuma grande seleção… perdeu para Alemanha, França, Argentina(mais de uma vez), México(coloquei aqui só pra constar a praga mexicana) empatou com Holanda e Colômbia e ganhou basicamente jogos contra seleções médias ou fracas e um contra uma Argentina desfigurada(no “superclássico”).

3 – da queda nas olímpiadas

O Brasil com o time que era base do atual, disputou as olimpíadas e desde aquela época já não mostrava padrão de jogo, vivia a base de chutões. Terminou perdendo para o bom time mexicano(base da seleção deles na copa).

4 – o suposto padrão de jogo

Algumas pessoas aventavam sobre o dito padrão que o Mano implementava no time, porém ele conseguiu o tal padrão(jogando sem um atacante de referência) contra times medíocres(goleadas contra China, Iraque e Japão), quando enfrentou um time um pouco mais qualificado, como foi o caso da Colômbia, sofreu para empatar.

Nesse tempo o trabalho dele já era absurdamente contestado… e a derrota no superclássico foi praticamente a gota d’água, foi mantido para o jogo contra a Colômbia, já citado, e depois mandado embora.

5 – a comissão campeã

Para acalmar os críticos que já caiam de pau na nova direção da CBF(o bandido que estava antes já havia saído, entrou o ladrão de medalhas), eles então resolveram montar a comissão técnica com os dois últimos campeões mundiais: Felipão e Parreira.

Do Parreira(clássico pé de uva) eu já nunca gostei, acho um técnico fraco, que não tem nada a acrescentar ao futebol. O Felipão ao contrário eu sempre achei um bom técnico, nada espetacular, porém conseguia lidar bem com o grupo. O maior problema é que mesmo no tempo que ficou na europa, ele parece que não aproveitou para se atualizar, tanto que no Palmeiras fez um trabalho fraco(exceção feita ao título, que nesse caso ele foi brilhante), pois ainda mostrava basicamente o mesmo estilo de quando ele saiu daqui.

Ressalvas feitas, apesar de um ou outro nariz torcido, na média gostaram da escolha de ambos, pois imaginavam justamente os técnicos campeões, porém esqueceram que o tempo passa e como diz aquele ditado “camarão que dorme a onda leva”.

6 – Título e ilusão

O time chegou para a disputa da copa das confederações totalmente desacreditado e em um torneio onde haviam bons times para o momento: México, Uruguai, Itália e Espanha também disputavam. O Brasil mostrou um grande futebol e conseguiu o título com uma vitória convincente em cima da Espanha por 3 a 0.

Voltou-se a ter fé na seleção e acreditar que o time poderia chegar de fato com condições de ganhar o título.

Inegavelmente a vitória contra a Espanha passou essa impressão, porém o maior problema é que o time espanhol estava jogando mais com o nome do que com o futebol, eles estavam(assim como na copa) arrogantes com os próprios resultados, jogando de forma displicente, além da má fase de alguns jogadores(caso emblemático de Xavi por exemplo).

7 – O ano dos jogadores e a convocação final

Aqui começa a sucessão de erros dessa seleção. Por uma questão de gratidão, os jogadores campeões da copa das confederações, tornaram-se praticamente intocáveis. O problema era o desempenho deles nos seus clubes…

Júlio César não conseguia nem jogar no QPR, foi para o Toronto, ainda sim antes mesmo da convocação o Felipão já afirmava que ele iria e seria o titular.
Daniel Alves vinha em péssima fase no Barcelona, haja visto que atualmente é apenas moeda de troca.
Fred se machucando constatemente e em uma fase pavorosa no Fluminense, tanto que esse ano os torcedores do time já reclamavam da péssima fase do mesmo.
Jô também vindo em má fase no galo.
Marcelo que não conseguia ser titular no Real.
Isso entre outras situações, nem o próprio Neymar fez uma temporada que possa ser considerada boa no Barcelona.

O problema entra quando ele ignora jogadores que fizeram temporadas excelentes e tendo em vista que as posições não tinham reservas de grande confiança, poderiam ter ido e até mesmo serem opções muito válidas. Exemplo Filipe Luis, que marca muito melhor que o Marcelo, Miranda que é muito mais zagueiro que o Dante, Philipe Coutinho um meia que poderia dar a criatividade que o Oscar não estava conseguindo.

Ataque fica sendo uma das piores posições, pois os dois que foram vinham em péssima fase, porém o que não foi está igualmente contestável. Damião, Luís Fabiano, Pato, Sóbis, Tardelli… para não citar os que vem em boa fase, mas que acredito ninguém queira na seleção, casos de Hernane, Rafael Moura, Dagoberto…

Talvez arriscar mais um atacante de velocidade ao invés de Jô ou Fred, mas ainda sim a convocação era basicamente essa, tinha pouco o que mudar(mais as peças que citei) e pelo time levado, até haviam algumas variações táticas que poderiam ser usadas ao longo da competição.

8 – A preparação, esquema tático e “planejamento”

2 fatores importantíssimos para começar
* A Alemanha construiu um CT pensando nos jogos em locais muito quentes pelos quais passaria.
O Brasil treinou na granja comary, local com clima totalmente diferente do encontrado no caminho da equipe.

* O treinador alemão preparou o time para jogar em mais de um estilo de jogo(tenha-se em vista que entrou hoje com um esquema que começou a ser usado nas quartas de final, com o Klose como centroavante, tendo uma referência na área).
O Felipão tinha o esquema “joga no Neymar”, perdeu ele e perdeu o rumo.

Chegamos aqui em um fato que vale ressaltar: o brasileiro de uma maneira geral não consegue entender a questão de se ter mais de 11 titulares no time. O conceito de se utilizar esquemas diferentes, de acordo com o adversário ainda é algo extremamente mal visto. Não se tem uma consciência de conjunto, para todos(inclusive para a imprensa que fomenta esse tipo de coisa e muitas vezes critica quando tal coisa é feita e se perde então a corneta toca de todo lado) são apenas 11 titulares e o resto é reserva, não se tem a ideia de que cada jogador pode ser utilizado de acordo com as características dos rivais.

Apenas para ilustrar: a Alemanha fez isso, Holanda, a própria Argentina(notem que os outros 3 semifinalistas tem essa consciência), Bélgica, Colômbia, Chile, México, EUA, isso apenas para ficar nos casos mais notáveis. Eles utizaram esquemas diferentes com peças que poderiam funcionar melhor contra esse ou aquele adversário. Isso mostra além de tudo conhecimento do grupo, pois se sabe exatamente a peça que tem em mãos.

Fazer isso é algo normal e inclulsive inteligente, porém aqui isso gera cornetas e melindre de jogador que acha que está sendo “desvalorizado” pelo técnico. E isso será bem notado quando a copa começa.

9 – o início terrível e a busca pelo futebol

O torneio se inicia e o futebol que se viu na copa das confederações parece um passado absurdamente distante. Diversos jogadores mostrando ao longo da primeira fase total falta de condição de jogar.

Fred é o grande expoente disso, lento, quando não imóvel e um dos que menos finalizava pela seleção… daí se pensa: como o centroavante, aquele que está em campo apenas para fazer gols ou abrir espaço para que o façam, não tenha uma participação muito mais efetiva no ataque? Era absolutamente surreal ver a má vontade do jogador.

Outros jogadores mostravam um futebol pífio: Dani alves, Marcelo, Paulinho, Oscar(depois do primeiro jogo, pois nele foi excelente), o time parecia ir no embalo do mau futebol de alguns jogadores.

Os poucos que de fato mostraram futebol ou esforço para tal, era os zagueiros(David Luiz, Thiago Silva), o Neymar e o Hulk, estes ao menos tentavam fazer algo, mesmo que não desse em nada.

O time foi ainda em primeiro para a segunda fase muito em função do juiz japonês que deu uma baita mão ao time brasileiro, pois não fosse por isso teria pegado o lado da Holanda e provavelmente teria ficado já nas oitavas.

10 – A segunda fase, o desequilíbrio, a ilusão e a queda.

O time foi para o jogo contra o Chile animado mais pelo retrospecto do que pelo futebol e o que se viu foi um autêntico show de horrores. Talvez das piores partidas que eu vi um time jogar e ainda conseguir passar. Ali o time mostrou que a preparação não vinha sendo só mal feita, ela praticamente parecia inexistir, pois o time além de não ter padrão, não tinha nem ao menos psicológico forte, parecia mais que o Chile era o time grande e o Brasil o time pequeno. Os pênaltis mostravam os jogadores desesperados, chorando como se fosse uma grande tragédia tudo aquilo e para dizer a verdade nem sei como o Julio Cesar ainda pegou duas penalidades, sendo que ele era um dos mais desequilibrados ali.

A Colômbia foi um caso à parte, pois o time ainda fez um primeiro tempo digno de seleção brasileira(o único por sinal da copa inteira), porém no segundo além de jogar mal, de novo, ainda perdeu o Neymar por conta da violenta agressão do Zuñiga.

Chegou para o jogo da Alemanha e a impressão que se teve é que a comissão viu outra Alemanha(talvez tenham olhando alemanhas de uns 10, 12 anos, onde ela era um futebol lento e fácil de marcar e onde parece que eles ainda estão com a cabeça). O time foi completamente massacrado pelos germânicos, de forma que uma seleção do porte da brasileira nunca que poderia ser. 7 a 1 ainda foi pouco perto do que poderia ter ocorrido ali, pareceu mais dó dos alemães do que o Brasil em algum momento do jogo ter melhorado.
11 – Os lunáticos

O time cai de forma ridícula, consegue acabar com o fantasma de 50, pois ele é devorado pelo monstro de 2014 e na entrevista mais parece que o Brasil caiu por mero acidente nas semis, pelo menos isso que é o que acham Felipão e Parreira em seus devaneios citados durante a coletiva que deram para explicar. Com direito até a uma cartinha, que prefiro até nem entrar em detalhes, de tanta vergonha que deu ver aquilo, eu diria que mais um pouco deviam mandar internar…

Finalizaram dizendo sobre o orgulho que seria terminar em terceiro…

12 – O vexame final

Chegou a disputa do terceiro lugar contra a forte e bem-organizada Holanda e o que se viu foi um show de horror ainda pior que o da Alemanha. Há quem justifique a derrota em erros da arbitragem, porém o time teria tomado bem mais de 3 gols se o time holandês estivesse com a mínima disposição de fazê-lo, pois eles apenas jogaram para o gasto, fizeram 2 gols rápido, depois so administraram frente ao pandemônio que era o esquema brasileiro. Oscar e William iam buscar bola dos zagueiros(volante pra que?), David Luiz incorporou Lúcio nos seus piores momentos(pensou que era o Sassá Mutema provavelmente) indo para o ataque o tempo todo e deixando a defesa aberta sempre e pra finalizar via-se o Jô cruzando bola na a área para… o Jô cabecear? Ele é o atacante alto que devia receber os cruzamentos e não quem os faz. Para finalizar Felipão recebendo instruções dos reservas, patético.

13 – Considerações

Olhando por essa ótica o andar dos fatos se vê que apesar de o vexame ter sido muito maior do que se esperava, não dá para dizer que foi por acaso, aliás nada nesse andar da seleção vem sendo por acaso, seja desorganização, seja farra, seja incompetência, tudo conspira para que a seleção dependa de sorte para vencer(no caso sorte de uma geração muito boa), pois no que depender do trabalho bem feito, podemos contar que seremos o novo Uruguai, que não ganha uma copa há 64 anos… Exagero? Um pouco sem dúvida, porém da forma como as coisas tem sido conduzidas aqui, não é um futuro tão improvável.

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