Carta Aberto ao sr. Paulo Nobre

Excelentíssimo senhor presidente Paulo Nobre, boa tarde.

Você não me conhece, nunca ouviu falar de mim, então permita-me uma breve apresentação. Meu nome é Fernando, tenho 29 anos, sou publicitário e professor universitário. Sou corintiano roxo (pleonasmo, eu sei) e tão apaixonado por futebol que resolvi fazer disso meu ganha pão, estudando marketing esportivo em meu mestrado e hoje começando a escrever os primeiros artigos e livros nesta área.

Pois bem, você deve ter estranhado uma parte do parágrafo acima. Eu sou corintiano, sim. Assim como era meu pai. Meu avô. Assim como são meus tios e meus primos. Em minha família, apenas meu irmão é palmeirense. Sempre que tocamos no assunto, costumamos dizer que ele é a ovelha verde da família (eu sei, não é muito criativo, mas o humor não é nosso forte). Agora meus dois sobrinhos, um com 6 e outro com 3 anos, estão querendo desafiar a genética e o bom senso e torcer para o Palmeiras.

E é por isso que estou lhe escrevendo, sr. presidente. Porque eu não aguento mais ver o palmeirense sofrer. Sabe, eu sempre tive pra mim que um dos motivos pelos quais o Corinthians é muito grande é o Palmeiras. Futebol, presidente, não existe sem rivalidade. E hoje eu tenho dó do Palmeiras. Dó mesmo. Considero vocês uns coitadinhos. Como se fossem torcedores da Matonense. Ou do XV de Jaú, que acho que nem existe mais.

Gostaria de pedir, se possível, para o senhor tomar atitudes que façam o torcedor parar de passar vergonha. Não estou falando que tem que ganhar tudo a partir de agora. Isso não existe, e o futebol, acredite, vai muito além de ganhar ou perder. Estou falando de atitude, de postura mesmo.

Lembro como se fosse ontem o primeiro rebaixamento do Palmeiras. No dia do jogo contra o vitória eu fui prestar vestibular, tentar uma vaga na USP. O sr. sabe, presidente, o quanto é importante para alguém de classe média como eu conseguir estudar em uma universidade gratuita?

Nunca admiti isso, e espero que minha família não leia este trecho com atenção, mas devo dizer: aquele dia eu não tinha cabeça nenhuma para fazer prova. Só conseguia pensar no Palmeiras e em como seria legar ver o nosso maior rival (desculpem São paulinos, nada pessoal, mas pro corintiano o que importa é o Palmeiras) na segunda divisão. No fundo do poço.

Evidentemente aquele foi um dia feliz. Meu irmão não estava em casa, eu acho, mas devo ter esperado até de madrugada pra tirar um sarro da cara dele. Durante dias, semanas, isso foi bem legal. Porém, em 2003 a coisa já não teve tanta graça. Era divertido ver o Palmeiras na segunda, mas como que ia ter clássico desse jeito?

O tempo passou, vocês voltaram pra primeira divisão, nós tivemos nossa passagem por esse inferno, e eu achei que as coisas voltariam ao normal. Que disputaríamos títulos, finais de campeonato, dividiríamos estádios. Queria ver de volta aquela guerra (dentro do campo apenas, evidentemente) que marcou minha infância e minha adolescência.

A derrota para vocês em 93 no paulista doeu demais, assim como as duas libertadores. Em compensação, o gol do Elivelton em 95 é algo que não sai da minha retina. Isso a gente chama de respeito por aqui, não sei qual o nome que dão Brasil afora.

De repente veio o segundo rebaixamento. Deu pra fazer umas duas, três piadinhas, mas eu já sabia que o ano seguinte seria chato, faltaria algo.

Agora vocês estão na última posição do campeonato brasileiro. Meu sobrinho mais velho não quer nem saber de futebol, porque o time que ele escolheu só perde, dá vexame, jogadores sem compromisso fazem o que bem entendem, a torcida é violenta e vocês, dirigentes, acham tudo isso normal.

Não permita que isso aconteça, presidente. Tome uma atitude. Demita quem precisar, contrate quem precisar. Organize as finanças do clube. Traga o torcedor de volta ao estádio. Faça com que nós, corintianos, voltemos a sentir medo do Palmeiras. Não deixe meu sobrinho crescer achando que o futebol não tem graça, ou admirando mais um Barça x Real Madri do que um Corinthians x Palmeiras.

Eu poderia citar dezenas de jogadores palmeirenses que já me visitaram em pesadelos, seja dormindo ou bem acordado, na frente de uma televisão: Marcos, Sergio, Velloso, Cafu, Antonio Carlos, Cleber, Tonhão, Roberto Carlos, Junior, Cesar Sampaio, Flávio Conceição, Rincon, Mazinho, Edmundo, Rivaldo, Alex, Evair, Maurilio, Asprilla, Galeano, Argel, Zinho, Euller… a lista seria interminável.

Veja que eu misturei craques com cabeças de bagre, presidente. Então a questão não é fama. Não é dinheiro. É vergonha na cara mesmo.

Traga de volta para nós o Palmeiras que eu aprendi a respeitar. Aquele time que eu amo odiar e odeio amar. Mostre que o Corinthians é tão grande que seu maior adversário passa por um momento de dificuldade e depois volta como uma fênix renascida das cinzas.

Faça com que uma derrota do Palmeiras seja motivo de alegria e chacota, e não de dó.

Utilizando o início de um hino que você não deve gostar nem um pouco, faço um último pedido, presidente Nobre: Salve o Palmeiras.

Forte Abraço,

Fernando Rossini

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