Todos os posts de Fabio Rossini

Fabio Rossini tem 32 anos, é zootecnista e servidor público. Fanático por futebol e História, e adepto da filosofia do "ódio eterno ao futebol moderno", pode ser considerado uma enciclopédia da cultura inútil, principalmente quando relacionada a futebol.

Libertadores 2014 – Felicitaciones Cuervos!

romagnoli

Acabou mais uma edição da taça libertadores. E como virou praxe desde 2012 cai um mito de um grande time que nunca havia conquistado esse título, e de uma torcida fantástica que merecia fazer uma festa imensa por esse conquista, ao exemplo do que aconteceu com Corinthians e Atlético mineironos anos anteriores, dessa vez a festa foi dos hinchas do San Lorenzo de Almagro. Festa merecida pela torcida que estava com a ausência do título de uma libertadores entalada e também pelo time que jogouo melhor futebol na competição. Continue lendo Libertadores 2014 – Felicitaciones Cuervos!

Libertadores 2014- Vamos Bolívar!

bolivar

 

Acabou a copa, voltamos a nossa realidade de campeonatos de clubes tanto nacionais quanto internacionais e aqui na América o futebol volta com a reta final da competição mais importante, a taça libertadores.

E a competição não podia voltar em data melhor, amanhã dia 24/07 comemoramos o aniversário do mais importante entre os libertadores da América, Simón Bolívar. E em homenagem ao espírito do libertador hoje temos em campo no estádio Nuevo Gasometro a equipe que carrega seu nome, o Bolívar de La Paz.

Com uma campanha surpreendente o Bolívar já superou dentro e fora de casa favoritos como o Flamengo do Brasil e o León do México e até o momento só sofreu uma única derrota na competição para os equatorianos do Emelec, os comandados pelo veterano treinador espanhol Javier Azkagorta tem uma equipe interessante que sabe se fechar fora de casa e matar os jogos como mandante. Com a transferência de seu principal jogador o uruguaio Willian Ferreira mercenário traidor que abandonou o time na reta final da libertadores para o futebol mexicano os destaques do time são os espanhóis Capdevilla e Callejón (irmão gêmeo do Callejón do Napoli) e o ex-corinthiano Arce.

Independente do favoritismo do San Lorenzo e das orações do Papa Francisco, hoje o futebol boliviano está em festa, desde o feito do Blooming em 1985 que nenhuma equipe boliviana chega tão longe em uma libertadores, e com alguma chance de passar mais adiante. Por isso uma caravana de 400 torcedores chegou hoje a Buenos Aires se juntando a comunidade boliviana residente na cidade porteña e promete fazer muito barulho apoiando os celestes, com destaque para o cantor de salsa norte-americano de origem porto-riquenha Marc Anthony que por sua amizade com o presidente/dono do Bolívar, o empresário Marcelo Claure, Anthony se tornou torcedor da equipe e hoje viajou a Buenos Aires para apoiar a acadêmia paceña.

O jogo promete ser acirrado e difícil, Azkargorta escalará uma equipe defensiva com 3 zagueiros e 2 volantes de marcação, apenas Callejón na armação e apostando na velocidade de Arce para puxar contra-ataques. Do outro lado os comandados de Edgardo Bauza entram com esquema mais ofensivo e apostando no talento de Romagnoli.

Com resultado positivo ou não, hoje a cidade de La Paz está em festa desde os boliches (como se chamam as baladas por lá) do centro e da zona sul, até as chicherías (bares) de El Alto. E toda a Bolívia (e grande parte da América do sul) está com Marc Anthony dizendo que hoje é Bolívar desde wawa (criancinha).

Brasil x Colômbia. Não faltam motivos para torcer! (pelos dois).

Sexta-feira quatro de julho de 2014, data importante pois é o dia em que se comemora 2 anos da libertação corinthiana e nada mais importa. Dia de grandes jogos abrindo a fase de quartas-de-final da copa do mundo. Entre esses grandes jogos teremos um duelo sul-americano. Brasil x Colômbia, o duelo entre o gigante de tradição (único pentacampeão do mundo) mas que vem jogando um futebol apenas razoável até o momento contra uma equipe de muito menos tradição (nunca havia chegado tão longe) mas que vem sendo até agora o time mais agradável de se ver jogando. Continue lendo Brasil x Colômbia. Não faltam motivos para torcer! (pelos dois).

O que seria da geração “tictac” se Óscar Cardozo não tivesse perdido o pênalti em 2010?

Eliminada precocemente após perder os dois primeiros jogos em 2014, campeã em 2010, ridicularizada em seu próprio país antes de sua primeira grande conquista, se tem uma seleção controversa nos últimos tempos, essa é a Espanha.

Mas imaginemos se esses últimos 4 anos nos quais ela foi super bajulada (a admiração de alguns por esse time beirou a idolatria em alguns momentos) a história tivesse ocorrido de uma maneira um pouco, só um pouco diferente. Pois é, detalhes podem mudar a história de vida das pessoas, de nações e também de um time ou uma seleção de futebol. E a história dessa boa geração de jogadores espanhóis passou muito perto de ser completamente diferente, me refiro especificamente ao jogo das quartas de final da copa de 2010 entre Espanha e Paraguai, sendo mais específico, falo do pênalti perdido por Óscar Cardozo no final da partida e que mudou mais que a história de um jogo, a história de toda a seleção espanhola de futebol.

Johannesburg, 3 de julho de 2010, naquele dia se enfrentaram Espanha e Paraguai. Até então a Espanha vinha jogando um excelente futebol, porém devido a fantasmas de seu passado em copas do mundo gerava desconfiança sobre a possibilidade de ganhar o título. Do outro lado tínhamos a seleção paraguaia, também com uma equipe de muita qualidade, mas que apesar de na primeira fase ter eliminado a campeã Itália com méritos não passava nenhuma confiança de que lutaria por título. Outros componentes que apimentavam mais o jogo eram o fato do Paraguai ter sido um dos grandes algozes da Espanha em 1998 (ocasião em que os espanhóis voltaram pra casa na primeira fase condenando a geração Raúl, enquanto o Paraguai fez bonita campanha consagrando a geração de Gamarra, Arce e Chilavert), e também o confronto de estilos, a Espanha com um time ofensivo, técnico com predominância de jogadores de baixa estatura, oposto ao time defensivo, forte e guerreiro do Paraguai.

O jogo foi muito bom (na minha opinião um dos melhores daquela copa) com um equilibrado confronto de estilos em que ora parecia pender para a técnica espanhola, ora para a força e raça paraguaia, até que já no segundo tempo do jogo chegamos no momento em que parecia que a maldição espanhola em copas ia seguir prevalecendo. Pênalti para o Paraguai! O excelente centroavante Óscar “Tacuara” Cardozo pega a bola e assume a responsabilidade de executar a cobrança. Toda a esperança nos pés do Tacuara (bambu em guarani, apelido dado devido ao biotipo alto e magro do matador benfiquista), espanhóis em pânico, e paraguaios esperançosos, quando Tacuara Cardozo cobra muito mal e Iker Cassillas defende a cobrança. Após o pênalti perdido, os paraguaios se abatem, os espanhóis ganham moral e vencem com gol de Davi Villa e o restante da história todos nós conhecemos.

Mas como seria se Cardozo tivesse feito o gol? (no caso a imaginação é minha e imagino que a Espanha perderia o jogo) Em desvantagem no placar, os espanhóis certamente se abateriam, o aguerrido time paraguaio não deixaria a Espanha chegar em sua área e sairia vencedor, não vou chutar quem seria o campeão, pois isso não vem ao caso, acredito que o Paraguai cairia na semi-final contra a Alemanha o que já seria um grande feito para los guaraníes. Mas o que teria sido da tão idolatrada geração tic tac nos quatro anos seguintes? Um time que foi rotulado por alguns como épico, revolucionário, que mudaria a forma do mundo jogar futebol, cheguei a ver gente (louca) dizendo que os pupilos de Del Bosque eram a melhor seleção de todos os tempos. Me pergunto se essas pessoas que tanto endeusaram um time inegavelmente bom (mas que acaba de nos provar que não é fantástico) teriam o mesmo discurso se o mesmo time, jogando o mesmo bom futebol tivesse caído nas quartas de final frente ao Paraguai? Pois não tenho a menor dúvida de que 99% dos que idolatram esse time estariam fazendo piada da Espanha desde 2010 até hoje.

Pois é, fica a reflexão, um pênalti bem ou mal batido, pode mudar o destino de equipes e gerações, e o nosso conceito sobre elas.tacuara

Política? Religião? Guerra? Nada disso, apenas o bom e velho futebol.

eua x irã

Começou a copa do mundo!Evento de grandiosidade inquestionável, comprovada pelos bilhões de espectadores ao redor do mundo que param na frente de seus televisores para assistir os jogos.

Desta vez de uma forma muito especial para nós que somos fãs deste esporte o evento ocorre aqui em nosso país, como não podia ser diferente quando estamos próximos de algo tão grande, as polêmicas estão presentes, uns são contra, outros a favor, alguns se exaltam com seus argumentos, o mundo inteiro fala sobre o assunto. Mas não quero entrar em nenhum desses méritos. Quero apenas lembrar de um dos momentos mais bonitos das copas do mundo que acompanhei. Falo do jogo de Irã x Estados Unidos pela copa de 1998 na França.

Desde o dia do sorteio, esse jogo foi assunto recorrente na imprensa mundial, nas mesas de bar, em conversas durante almoços de família, ou nos intervalos das aulas (na época eu era um estudante de 15 anos). Em geral os profetas do caos previam desde uma sangrenta batalha campal com um jogo recheado de cartões vermelhos, passando por violentos conflitos entre torcedores, atentados terroristas e até crises diplomáticas e guerras nucleares. Mas o que vimos naquele dia foi o óbvio, ou seja, o completo oposto do que previam os “profetas”.

Para quem teve o prazer de acompanhar essa partida, vimos um lindo momento de confraternização, quem ainda não entendia teve a grande oportunidade de entender que se poderosos líderes de nações (aqui não estou condenando x, y, ou z) alimentam a discórdia por interesses diversos, o que nós cidadãos temos com isso? Nada! E foi isso que os norte-americanos (estadunidenses para quem preferir) e iranianos demonstraram naquele dia. No momento dos cumprimentos pré-partida os jogadores se cumprimentavam com sorrisos e o time iraniano até presenteou os adversários com flores. Ao contrário do que costumamos ver na maioria dos jogos, onde adversários se cumprimentam por obrigação sem mal olhar um na cara do outro, nessa ocasião vimos o completo oposto disso, gestos gentis de ambas as partes dizendo ao mundo: – Estamos nos cagando para os líderes que semeiam o ódio, isso é apenas um jogo de futebol, daremos a vida para vencer, mas o adversário não é inimigo!

Agora vamos ao que interessa, o jogo!

Em 1998 os Estados Unidos tinham um time inferior ao atual, já não contavam com seu melhor jogador da copa anterior, o talentoso meia Eric Wynalda, e ainda não tinham o que viria a ser seu destaque em copas posteriores, o rápido Landon Donovan. Os destaques daquele time eram o bom volante Claudio Reyna, o velocista Cobe Jones, o grandalhão McBride e o zagueiro Pope. Por outro lado o Irã tinha um time muito, mas muito melhor que o que tem hoje, com vários jogadores que fizeram sucesso na bundesliga, entre eles o grandalhão desengonçado, porém goleador, Ali Daei, o clássico meio-campista Karim Bagheri, o rápido e habilidoso ponta Azizi, e o jovem e raçudo ala Mehdi Mahadavikia.

Ao contrário do que se pode pensar com as gentilezas no momentos dos cumprimentos, o jogo não foi um jogo de moças, pelo contrário, houve muita raça, ambas as equipes entraram em campo com muita vontade de vencer, não houve violência, mas houve muita rivalidade, existe jogo melhor que um jogo assim?

Mais limitados tecnicamente, mas com um time fisicamente avantajado, os norte-americanos abriram o placar com gol de McBride. O Irã que já era melhor na partida, não se abateu com o gol sofrido e seguiu buscando o resultado e logo empatou com gol de Estili, e conseguiu a virada com gol do melhor em campo, escalado na ala direita, Mahadavikia estava tão possuído que até na ponta esquerda aparecia, correu literalmente o campo todo, e foi premiado com o gol da virada, dali em diante Cobe Jones tentou assumir o jogo, correu muito, buscou o gol, mas suas limitações técnicas não permitiram que conseguisse virar o jogo. A técnica de Karim Bagheri tomou conta do meio-campo e os dribles de Azizi mantiveram o jogo sob controle, terminando com vitória iraniana por 2 x 1.

O dia em que o cavalo foi fenômeno

Era o ano de 1998, e o Paisandu não vivia seu melhor momento, com um time fraco e maus resultados, a torcida do Papão da Curuzú carecia de ídolos, eis que a solução da diretoria bicolor foi a contratação de um “fenômeno”. Naquele ano o fenômeno Ronaldo era o craque do momento, ídolo da seleção brasileira e da Inter de Milão, Ronaldo era o melhor e mais caro jogador da época e era obviamente uma aquisição impossível para os cofres do clube paraense. Mas em momentos em que o dinheiro falta, o ser humano tem que apelar para a criatividade, e criatividade é algo que não costuma faltar aos brasileiros, ainda mais quando falamos de dirigentes de futebol.

Muito distante de Milão e de Belém, no interior do estado do Rio de Janeiro, um jogador chamado Darci, já veterano, e com a alcunha de Cavalo (não se sabe se devido a muita força física, a pouca técnica, ou um mix de ambos) reunia as seguintes características, alto, forte, careca, dentuço, e com a fisionomia muito parecida com a do fenômeno. Com boas passagens por equipes menores do Rio, principalmente no Volta Redonda, Darci não era um jogador barato naquele difícil momento do Paisandu, mas também não era uma contratação impossível, tanto que com um esforço, o Papão conseguiu contratá-lo.

Muito diferente do que aconteceu anos depois quando o bicolor paraense formou um grande time com Iarley, Vélber e o matador Róbson (O Robgol). Naquele ano a situação era crítica, tanto que a chegada de um reforço que a torcida sequer conhecia virou a grande notícia do futebol paraense. Só se falava na chegada do tal Darci Cavalo. O Papão tinha seu Fenômeno, que mesmo antes de estrear já era o grande ídolo da torcida.

Darci chegou a Belém, foi apresentado como craque, recebido como grande ídolo da torcida e esperança de dias melhores, treinou por alguns dias, até que chegou o grande momento, a hora da estréia.

No grande dia o estádio lotou, a torcida vibrava, agora o Paisandu também tinha seu Fenômeno. O jogo começou, mas como darci estava no clube há poucos dias e ainda não estava entrosado com os companheiros, começou no banco. Como era de se esperar o Paisandu começou o jogo muito mal, um time fraco e nervoso em campo, rapidamente começou a ser vaiado pelos seguidos erros, tanto que aos 15 minutos do primeiro tempo, a torcida em coro já gritava: “CAVALO, CAVALO!!!”

Após um péssimo primeiro tempo não restou outra alternativa ao técnico, botou o Cavalo em campo. O estádio ferveu aos gritos de “CAVALO, CAVALO!!!”, E a substituição mexeu com o moral do time, que iniciava um bom segundo tempo, em poucos minutos Darci Cavalo recebeu a primeira bola, mas dominou de canela e perdeu seu domínio, obviamente devido ao nervosismo da estréia. Mais alguns minutos e o alto Darci teve a chance no que sempre foi o ponto fraco de seu sósia famoso, o cabeceio, mas a cabeçada descordenada por baixo da bola fez com que ela subisse demais passando muito longe do gol.

Os minutos se passaram e o moral do time paraense voltou a baixar, e os erros do primeiro tempo também voltaram, com isso a bola parou de chegar ao recém contratado, a torcida novamente perdia a paciência e voltava a vaiar o time Os únicos momentos de euforia eram quando a bola se aproximava de Darci.

Eis que no final da partida ocorre o momento iluminado e mágico que só pode ser atribuído aos Deuses do futebol, o time da casa arma um contra-ataque genial, com uma troca de passes impecável, o último passe milimétrico é dado em direção ao matador Darci, que muito grato a recepção calorosa dos torcedores pensa em presenteá-los com um lance digno de Ronaldo Fenômeno e ao invés de matar a bola, opta por abrir as pernas fazendo o famoso corta-luz (jogada em que o jogador finge ir na bola para atrair marcação, abre as pernas e deixa ela passar, fazendo com que um companheiro livre de marcação fique na cara do gol). O corta-luz foi de cinema, Darci atraiu a marcação de toda a defesa adversária com a jogada. Só houve um problema, empolgado com a jogada, darci não observou que não tinha nenhum companheiro para receber o passe, e a bola calmamente saiu pela lateral no lance que ficou conhecido como corta-luz para ninguém.

Não entendendo a complexidade e o ineditismo da jogada, os impacientes torcedores revoltados passaram a xingar Darci de tudo quanto foi nome, e após o final da partida só se escutava a palavra cavalo seguida de palavrões pejorativos.

E assim foi o dia em que o Cavalo virou Fenômeno, mas voltou a ser apenas Cavalo.

Quem é desumano?

Ano novo, vida nova, competições começando, times reforçados, mas os velhos assuntos continuam os mesmos. Entre todos os assuntos chatos que rodeiam o mundo do futebol e ocupam inúteis horas de debates esportivos, um particularmente me irrita mais que todos os outros juntos. Esse assunto é a velha choradeira de parte da imprensa esportiva brasileira quando times tupiniquins tem que jogar em cidades com altitudes consideradas elevadas.

O ano de 2012 promete ser muito interessante para os amantes de futebol, e particularmente a copa Libertadores promete ser o grande destaque futebolístico do primeiro semestre. 3 grandes clubes cariocas vem com boas equipes e muita rivalidade. 2 grandes paulistas sendo um o atual campeão e favorito ao bi (bi em sequencia, tetra em títulos alternados) e o outro é o atual campeão brasileiro e vem com o velho trauma de nunca ter vencido a competição continental. Isso somado ao bom time do Internacional, a volta do Boca que não disputava há algum tempo, a sempre perigosa LDU, e o bom time da Universidad de Chile, entre outros, fazem da Libertadores de 2012 uma competição que promete ser uma das mais emocionantes da história.

Com tantos atrativos, podemos pensar que a imprensa está fazendo uma grande cobertura, mostrando destaques de várias equipes, etc. Mas não, a única coisa de que se fala (além das também chatíssimas contendas entre Ronaldinho e Luxemburgo) é sobre o Flamengo jogar na temida Potosí. Sobre a altitude “desumana”, um monstro mitológico que na boca de certos pseudo-intelectuais parece vestir a camisa 10 dos times locais, bater escanteios e cabecear a bola do escanteio que ela mesma cobrou.

O primeiro ponto que pretendo tocar sobre a “desumanidade” do assunto, é justamente o lado humano, imagine você, caro leitor, seja nascido onde for, que um “gênio” de um país estrangeiro saia dizendo por aí que a prática do que quer que seja na cidade em que você nasceu, ou vive, é desumana. Quer dizer que aqueles que conseguem praticar normalmente não são humanos? E os que nasceram e vivem nesses lugares? São o que? Animais? E Ts? Notaram o quanto esse tipo de declaração é no mínimo uma deselegância e uma tremenda falta de educação? Afinal de contas o que é mais desumano? Jogar futebol onde vivem milhões de pessoas e todos praticam esportes normalmente, ou dizer que fazer o que quer que seja em regiões habitadas por seres HUMANOS é desumano?

Outro ponto importante é o da saúde dos atletas, pois da última vez que o Flamengo atuou na mesma Potosí, a choradeira foi tão grande que chegaram até a fraudar relatórios médicos, e tudo que encontraram em toda a história foi a morte por ataque cardíaco de um atleta amador, em uma partida realizada na cidade de Oruro, do mesmo tipo que os que já mataram jogadores no Brasil, na França, em Portugal, entre outros países de altitudes baixas. E esse relatório obviamente nunca vai poder refutar os vários laudos sérios que comprovam que o risco de morte é o mesmo em altitudes altas ou baixas.

Aí os pseudo-intelectuais dirão que jogar na altitude é uma covardia, uma deslealdade, e que a diferença de desempenho de quem está adaptado para quem não está é absurda. Nesse caso também não é bem assim. Pra começar que jogar em casa é sempre uma vantagem, e quando se tem alguma particularidade ambiental que dificulte mais para o adversário, essa vantagem tende a aumentar. Exemplos não faltam, equipes que jogam em estádios grandes e com torcida distante do campo como o São Paulo por exemplo, sempre tem dificuldades de jogar na Vila Belmiro, ou na Arena da Baixada que são alçapões. O Juventude sempre usou o frio de Caxias, assim como o Paissandu o calor de Belém como uma arma a mais. Equipes italianas, e espanholas sofrem quando jogam no frio da Russia ou da Noruega. O Brasil teve uma grande vantagem quando enfrentou a Holanda em 94 no calor de mais de 40 graus de Dallas. Assim é o mundo em que vivemos, quente, frio, seco, úmido, alto, baixo.

Ainda no ponto da diferença técnica, muitos “especialistas” garantem que atletas profissionais praticamente não sentem dificuldades de respirar, mas que o problema maior é que a reação da bola é muito diferente, ela fica mais leve, e tem que colocar bem mais efeito para que ela faça curva. De fato isso é verdade, porém é uma situação com dois lados da moeda, pois quem está acostumado a jogar lá em cima, quando vem jogar em baixas atitudes sente a bola muito pesada (quase uma bola de futebol de salão) e rebelde, que faz muita curva, ou seja, o que dificulta um no jogo de ida, dificulta o outro no de volta.

Por fim dirão: “Se a altitude não é esse monstro, por que times tecnicamente superiores perdem tanto para equipes mais fracas?”. Isso se explica justamente pelo drama criado em alguns países sul-americanos (principalmente no Brasil) que não tem elevadas altitudes, quando seus times jogam lá. Simplesmente se criou um monstro tão grande, que ficou impregnado na cabeça das pessoas, nenhum jogador do Flamengo teme o Real Potosí, nenhum jogador brasileiro teme a hoje fraca seleção boliviana (que morre de saudade da geração de Baldevieso, Etcheverry e etc). Mas todos temem de forma exagerada e desnecessária o”jogador altitude”, e este fator psicológico faz toda a diferença. Posso citar dois exemplos que provam o quanto o medo da altitude provoca efeitos que ela não causa em ninguém.

Em 1992 quando o São Paulo, enfrentou o San José nos 3.700 Mts da cidade de Oruro, o vôo fez escala na cidade de Santa Cruz de la Sierra (que está praticamente no nível do mar) e por um imprevisto, a equipe brasileira teve que passar um dia na capital crucenha, como o Mestre Telê Santana não gostava de dormir em serviço, aproveitou o dia em Santa Cruz para treinar a equipe em um campo alugado. Eis que em poucos minutos de treino o atacante Macedo de tanto ouvir falarem sobre os males da altitude boliviana e com muito medo de passar mal naquele clima “desumano”, sentiu uma falta de ar insuportável e dizendo que não havia ar nenhum para se respirar, desmaiou. Sim, ele desmaiou devido ao “ar rarefeito” de uma cidade que está na metade da altitude de São Paulo!!!

Outro exemplo que posso citar é o exemplo pessoal meu, já estive em cidades de altitudes moderadas (Tarija e Sucre), e em cidades bem altas (La Paz, Potosí, El Alto, e Copacabana). Em minha primeira vez na Bolívia tive uma indisposição intestinal quando o avião estava prestes a aterrizar no aeroporto de El Alto, e devido a isso, meus primeiros minutos a mais de 4.000 mts de altitude foram de uma intensa corrida e descida de escadas em busca de um banheiro, e posso dizer que não senti nada de muito diferente do que senti quando tive de correr devido a apertos parecidos no Brasil. Nas cidades de La Paz, e Potosí, além de caminhar muito em subidas e descidas, fiquei hospedado em edifícios altos e sem elevadores (isso não é raro por lá) e cheguei a ter que subir escadas correndo sem problemas. Em Copacabana (não a praia carioca, mas sim a belíssima cidade nas margens do lago Titicaca) tive a experiência de jogar futebol com alguns garotos locais, e a única dificuldade que tive foi ter que usar de minha habilidade para chapelar uma ovelha que pastava ao lado da quadra, e sabe-se lá por que invadiu a quadra no meio do jogo.

Tenho um exemplo que comprova a importância do fator psicológico. Na escalada ao topo do pico Chacaltaya que fica há mais de 5.000 mts de altitude, na excursão rumo ao lindo pico nevado famoso pela pista de esqui mais alta do mundo, mais da metade dos turistas eram brasileiros, sendo a outra metade dividida em gente de várias partes do mundo, no final da escalada rumo ao pico estavam no topo, além dos guias locais, turistas noruegueses, israelenses, americanos, japoneses, ingleses(todos de países que não tem cidades muito altas), e dos brasileiros apenas meu irmão asmático, e eu chegamos no topo, todos os outros brasileiros pararam alegando que estava difícil respirar. O que mais pode explicar brasileiros sentirem um “mal da altitude” que o inglês não sente? A única explicação que encontro é um temor criado por gente que transforma uma coisa normal em um monstro.

Por fim recomendo que as pessoas antes de fazerem julgamentos, conheçam esses países belíssimos como Bolívia, Peru e Equador, e que todos os torcedores disfrutem muito dessa Copa Libertadores de nossa querida e diversificada América.

 

 

 

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Higuita: O escorpião rei

No futebol vários jogadores se destacaram por diversos motivos, Pelé e Maradona foram os melhores, Cruijff foi o mais tático e inteligente, Garrincha o mais habilidoso, Beckenbauer o mais versátil. Mas nenhum jogador atingiu notoriedade mundial de uma maneira tão exótica quanto René Higuita.
Habilidoso como poucos, Higuita foi a figura mais irresponsável da história do futebol, apesar de jogar como goleiro, ele nunca teve nenhum pudor em exibir sua habilidade, mesmo que para isso tivesse que colocar sua equipe em situações complicadas e até mesmo constrangedoras.
Colombiano nascido na cidade de Medellín, Higuita começou a se destacar defendendo o Atlético Nacional de sua cidade, equipe pela qual venceu a taça Libertadores da América em 1989, e nesta competição o mundo conheceu o goleiro que mais do que impedir os gols adversários, também fazia uns golzinhos e frequentemente saía de sua área para driblar os atacantes adversários.
Após vencer a libertadores, faltava para Higuita mostrar sua habilidade em uma copa do Mundo, e a oportunidade surgiu na copa da Itália em 1990. Sobre este evento podemos dizer que Higuita não decepcionou os fãs de sua irresponsabilidade mas não deve ter agradado o torcedor colombiano.
Depois de uma boa campanha na primeira fase, a seleção colombiana classificou-se para as oitavas de final, na qual enfrentaria a outra surpresa daquela copa, a seleção de Camarões do veterano Roger Milla. Prepotente, Higuita possivelmente subestimou os camaroneses e arrancou de sua área rumo ao meio de campo driblando os adversários, o que ele não esperava era que o astuto Milla já prevendo a jogada de Higuita lhe tomasse a bola e tocasse para o gol aberto e desprotegido, classificando Camarões e eliminando a Colombia do mundial.
Depois da copa de 90 poderia se pensar que Higuita nunca se superaria na arte de ser irresponsável, mas em um amistoso contra a seleção inglesa em 1995 ele provou que sua capacidade jamais poderia ser subestimada. No mítico estádio de Wembley em uma partida que tinha tudo para ser mais um amistoso sem graça, Higuita fez o exigente público inglês delirar ao fazer a defesa mais circense da história do futebol. Projetando seu corpo para a frente, dando um salto ao estilo “peixinho” e erguendo os calcanhares como um rabo de escorpião, Higuita defendeu um chute do meia inglês Jamie Redknapp com os calcanhares.
Apesar da incrível habilidade e da ousadia única, a irresponsabilidade fora dos campos equivalente a que tinha dentro deles, levou a carreira de Higuita ao declínio, envolvimento com o narcotráfico e suspensões por uso de cocaína mancharam sua gloriosa carreira. Mas sem dúvida Higuita deixou seu nome na história do futebol como um inovador que inspirou goleiros como o paraguaio Chilavert e o brasileiro Rogério Ceni a cobrarem faltas e penaltis e fazerem gols, o legado de René Higuita ficou para sempre na história do futebol mundial, porém sua habilidade e irresponsabilidade são únicas e jamais existirá outra figura como ele.

A História do futebol, e as “estórias” do futebol.

 

 

Com imenso prazer recebi o convite do Em cima da linha para escrever esta coluna sobre História do futebol, um espaço no qual poderei fazer duas das coisas mais prazerosas da vida: Contar histórias, e falar de futebol.

Nada mais gostoso que poder falar desse jogo que alguns dizem não passar de 22 babacas correndo atrás de uma bola, mas que move bilhões de fanáticos em todo o mundo, dos caríssimos camarotes de Wembley até o mais modesto campinho de terra no interior da África.

Nesta coluna pretendo contar a história do futebol dentro das 4 linhas e também ir um pouco além delas, entrando na essência deste esporte, mostrando o quanto ele está relacionado a nossas vidas. Contando histórias de jogadores, treinadores, torcidas, estádios, clubes e sobre a importância deles para seus países, estados, cidades e bairros. Em resumo falarei sobre a importância do futebol para a sociedade.

Nesta coluna Manchester United, Barcelona, Cristiano Ronaldo e Messi terão a mesma atenção e importância que o Juventus da Moóca e Juca Baleia o lendário goleiro do Sampaio Corrêa, pois aqui mais importante que o resultado é a história.

Espero que ao ler a coluna sobre a História do futebol todos tenham o mesmo prazer que estou tendo ao escrevê-lá.