A última dança?

Dona Palmera é uma senhora muito simpática. Centenária, italiana, sempre trabalhou como dançarina.

Viveu a época de ouro da dança nas décadas de 60 e 70. Era tão boa que montou uma escola de dança. Todos chamavam de Academia.

Talvez dona Palmera nunca tenha tido o melhor parceiro do mundo para dançar. Mas a dona Santina, que tinha o tal do Edson, conhecido por todos como o Rei da Dança, tinha sérias dificuldades em vencer os concursos em que enfrentava a “italianona”, como era conhecida dona Palmera. 

Teve muitos parceiros importantes. Um tal de Ademir, que as outras dançarinas invejavam, chamavam até de Divino; o Dudu, O Cesar, que era meio maluco, o polêmico e bonitão Leão… companhia nunca faltava, afinal, era uma das mais importantes dançarinas da época.

Durante quase 20 anos, dona Palmera ficou meio esquecida, largada em um canto, sem comemorar nenhum festival de dança. À distância, ela via não só a Dona Santina mas também a Paulina, que tinha um parceiro fantástico, um tal de Raí, ganhar o mundo. E acreditem, até a maloqueira da dona Curintia já estava fazendo sucesso pra tudo quanto é canto. Ganhou o torneio nacional de dança, acredita? A última dança foi com um tal de Tupãzinho, mas tinha um tal de Neto que fez sucesso com ela durante o torneio inteiro.

O tempo passou e Dona Palmera arrumou uma empresa para patrocinar seu novo estúdio, era uma produtora de leite. Nessa época apareceram vários outros parceiros, como o Edmundo, o Evair, Rivaldo, Zinho, Djalminha… era uma verdadeira constelação. Finalmente dona Palmera voltava ao topo, conseguia fazer sucesso novamente com seus passos tão conhecidos, elegantes, técnicos, consagrados. Era bonito de se ver. Mas, ninguém sabe explicar os motivos, Dona Palmera voltou a ter dificuldades.

Teve lá seus momentos de brilho, quando ao lado do Dom Juan de São Marcos dançou alguns festivais ao seu lado, com outros parceiros importantes como o Alex e o paraguaio Arce. Mas Dona Parmera começou a se afundar.

No começo dos anos 2000, uma vergonha nunca imaginada: Dona Parmera tropeçou no meio de uma dança e caiu. Ninguém podia acreditar no que estava acontecendo. Uma dançarina tão experiente, consagrada, com tantos títulos e companheiros na história… Mas quem é grande se recupera, e Dona Parmera voltou aos principais festivais.

Foi então que ele surgiu. Don Mago Jorgito. Era um dançarino chileno, meio polêmico, mas sem sombra de dúvidas habilidoso. Don Jorgito tinha uma fama meio estranha. Parece que ele tinha bebido demais em seu país e por isso estava suspenso das principais competições de lá… Não podia representar a equipe chilena em competições internacionais.

Foi amor à primeira vista. Dona Parmera, tão carente de um dançarino que chamasse a atenção, se apaixonou imediatamente pelo Mago. De vez em quando ele bebia demais, batia nela, é verdade. Mas ela disfarçava os hematomas com uma bela maquiagem e seguia dançando com ele.

Se separaram por um tempo, quando ele foi dançar em terras árabes, mas logo ele voltou aos braços dela. Uns diziam que era amor, os mais maldosos diziam que ela vendeu o carro para pagar a ele pela volta. Mas a verdade era que Don Jorgito encantava à Italianona. Não importava que todos falassem a ela que ele não prestava, que nas danças finais ele se machucava, ou então arrumava briga e era expulso do salão. Para ela, o Mago era o melhor dançarino do mundo.

O pior aconteceu no meio do ano. Don Jorgito ameaçou ir de novo para a Arábia. Chegou a viajar, de lá foi pra Disney, sumiu, não deu notícias. Dessa vez, Dona Parmera percebeu a traição e resolveu dar um basta. Mas ele só precisou aparecer de volta com cara de apaixonado para ela aceitá-lo de volta em seus braços. Primeiras danças feitas, ele se machucou de novo, dessa vez com uma certa gravidade. Todos duvidavam que a lesão era verdadeira, mas Dona Palmeira continuava defendendo seu companheiro chileno. Quando ele voltou, aprontou de novo: pisou em outro dançarino, e muitos dizem que foi só para não ter que dançar de novo.

Alguns dizem que Don Jorgito cansou de dançar com Dona Palmera. Que só fica no estúdio dela porque ela paga bem. Ela tem um misto de sensações. Quando ele apronta, ela diz que foi a última vez. Que vai colocar ele pra fora, que nunca mais ele colocará os pés na sua renovada Arena de Dança. Mas sempre que ele quer voltar, basta um sorriso, um brilhareco, um passo diferente, que ela o aceita de volta.

Quem vê de fora, acha que Don Mago é um explorador. Mas quem há de julgar esse amor? Um amor bandido, é verdade. Mas um amor sincero.

parmera

Deixe uma resposta